Um mapa é um
bom modo de se achar perdido. Um cenário é onde acontecem coisas, um espaço é
onde as coisas são. Depois de já escrito grande parte deste texto volto às
beiradas, realço os contornos, as fronteiras, molduras. Existem tantas palavras
para uma coisa só, quanto se queira ter. Caminhos de léxicos em campos
semânticos. Ligações de palavras-conceitos já estabelecidos, ligações
subjetivas, etc. Linhas que não cessam. Inesgotável escritura, leitura abismal.
Lançar-se, o mergulho para fora de si como imagem da continuidade paradoxal dos
corpos. Um mapa é um bom modo de se achar perdido.
Há
aqui alguns traços que delineiam a imagem do autor, um tanto moribundo, como um
morto que recusa o obituário. Seu corpo quase não existe, mais parece um
fantasma. Sustenta-se pela aura de seu espetáculo, suga a vitalidade de suas
próprias criações. A imagem de Saturno devorando seus filhos me vem à cabeça. Talvez
o devaneio queira me dizer algo, talvez poderíamos pensar no autor como
produtor de uma temporalidade que se presume única. No entanto, ele (o autor) não tem lugar nesse mapa,
espaço em processo, que, vacilante, me ponho a traçar. O espectro do autor se
projeta nos furos do texto, esse criador ausente. Sigamos em suspensão traçando
um voo sobre a malha do sentido do texto.
Há
a escrita. Traçado que erra pelo papel, fiapo de linha no tecido de uma talvez
obra sempre por vir, no cortejo de uma totalidade fechada que, todavia,
involuntariamente ou não, (vai saber as intenções) abre seus poros a fim de
respirar. Temos aí uma vida? Qual será seu nome? Como os outros (quem seriam
estes?) vão reagir a esse corpo ainda tão puro, com cara de joelho?
Antes
de sequer imaginar ser obra, a escrita traça suas linhas, vira mancha,
desenvolve textura, tessitura, vira tecido, pele, texto. Carne viva exposta e
agonizante, hesitante, tremendo de medo ao se lançar no espaço que ainda não é.
Agonística, se questiona, contradiz, revolta se consigo mesma, tamanha a sua inquietude,
a escrita poderia ser tratada como algo próximo de um tremor em si. Um
descompasso que aos poucos encontra em si o seu ritmo. Almeja o tempo todo fugir de si mesma, dessa
abertura vertiginosa que a envolve, buraco sem eira nem beira. Continuar,
sempre, além.
Isso
é um corpo? Um feto? Uma contingência que não se sabe. Descontínuo, sem fala,
não se adereça a nada, desconhece as linhas que agem sobre si. Há um projeto de
corpo, um movimento tateante, um balbucio, algo que aos poucos se insinua,
ensaia diferentes formas, experimenta, joga no/com o espaço que produz.
Vingará?
Crescerão raízes e se sim, qual o solo que de bom agrado aceitará ser violado,
o colo que de bom agrado o acolherá? Quais os nutrientes necessários? O que
será preciso para que este projeto de coisa se imponha, se posicione, conquiste
espaço, crie forma? O cenário se revela selvagem, múltiplo, barulhento,
inóspito. Os ainda não nascidos se espantam.
A
unidade se trai. Isto que quer nascer - que não se pode descrever, simplesmente
porque ainda não é - começa a perceber que nunca foi um só. Um texto bem
poderia ser chamado de legião.
Todo
corpo precisa de alma. Toda matéria precisa se mover. Para onde? Agora que há
um espaço apropriado, delimitado, o corpo se toma por fronteira. Mas o tremor
não cessa, corpo e alma não conseguem se conter. Há uma dança eterna dentro de
cada átomo. É preciso continuar, em que direção? Os limites se desenham, formas vazias,
buracos, agora propriamente ditos, com eira e beira. Os caminhos se firmam, o
mapa exibe seus ramos.
Há ainda uma
ausência que se dá a ver. Um abismo que continua lá para onde o espírito
aponta: fora. Eu texto me espelho no vazio que me envolve. Eu escrita me
identifico com minha exterioridade desdobrada.
Começo
a desconfiar que os grandes mapas nunca tiveram o intuito de encontrar alguma
coisa. Talvez o devaneio queira me dizer algo. Talvez o intuito fosse reduzir o
espaço ao ponto de poder segurá-lo com as mãos, e assim, chamá-lo de meu. Algo
para apresentar. Veja, olhe até onde meu corpo se estende. Veja os grandes edifícios que construo neste
espaço que crio e chamo de meu. Alguém deve conseguir enxergar isto que se dá a
ver. Deve ressoar em alguém ou alguma coisa este tremor, este quase canto, esta
tentativa.