sexta-feira, 27 de maio de 2016

cartografia do risco

Um mapa é um bom modo de se achar perdido. Um cenário é onde acontecem coisas, um espaço é onde as coisas são. Depois de já escrito grande parte deste texto volto às beiradas, realço os contornos, as fronteiras, molduras. Existem tantas palavras para uma coisa só, quanto se queira ter. Caminhos de léxicos em campos semânticos. Ligações de palavras-conceitos já estabelecidos, ligações subjetivas, etc. Linhas que não cessam. Inesgotável escritura, leitura abismal. Lançar-se, o mergulho para fora de si como imagem da continuidade paradoxal dos corpos. Um mapa é um bom modo de se achar perdido.
                Há aqui alguns traços que delineiam a imagem do autor, um tanto moribundo, como um morto que recusa o obituário. Seu corpo quase não existe, mais parece um fantasma. Sustenta-se pela aura de seu espetáculo, suga a vitalidade de suas próprias criações. A imagem de Saturno devorando seus filhos me vem à cabeça. Talvez o devaneio queira me dizer algo, talvez poderíamos pensar no autor como produtor de uma temporalidade que se presume única.  No entanto, ele (o autor) não tem lugar nesse mapa, espaço em processo, que, vacilante, me ponho a traçar. O espectro do autor se projeta nos furos do texto, esse criador ausente. Sigamos em suspensão traçando um voo sobre a malha do sentido do texto.
                Há a escrita. Traçado que erra pelo papel, fiapo de linha no tecido de uma talvez obra sempre por vir, no cortejo de uma totalidade fechada que, todavia, involuntariamente ou não, (vai saber as intenções) abre seus poros a fim de respirar. Temos aí uma vida? Qual será seu nome? Como os outros (quem seriam estes?) vão reagir a esse corpo ainda tão puro, com cara de joelho?
                Antes de sequer imaginar ser obra, a escrita traça suas linhas, vira mancha, desenvolve textura, tessitura, vira tecido, pele, texto. Carne viva exposta e agonizante, hesitante, tremendo de medo ao se lançar no espaço que ainda não é. Agonística, se questiona, contradiz, revolta se consigo mesma, tamanha a sua inquietude, a escrita poderia ser tratada como algo próximo de um tremor em si. Um descompasso que aos poucos encontra em si o seu ritmo.  Almeja o tempo todo fugir de si mesma, dessa abertura vertiginosa que a envolve, buraco sem eira nem beira. Continuar, sempre, além.
                Isso é um corpo? Um feto? Uma contingência que não se sabe. Descontínuo, sem fala, não se adereça a nada, desconhece as linhas que agem sobre si. Há um projeto de corpo, um movimento tateante, um balbucio, algo que aos poucos se insinua, ensaia diferentes formas, experimenta, joga no/com o espaço que produz.
                Vingará? Crescerão raízes e se sim, qual o solo que de bom agrado aceitará ser violado, o colo que de bom agrado o acolherá? Quais os nutrientes necessários? O que será preciso para que este projeto de coisa se imponha, se posicione, conquiste espaço, crie forma? O cenário se revela selvagem, múltiplo, barulhento, inóspito. Os ainda não nascidos se espantam.
                A unidade se trai. Isto que quer nascer - que não se pode descrever, simplesmente porque ainda não é - começa a perceber que nunca foi um só. Um texto bem poderia ser chamado de legião.
                Todo corpo precisa de alma. Toda matéria precisa se mover. Para onde? Agora que há um espaço apropriado, delimitado, o corpo se toma por fronteira. Mas o tremor não cessa, corpo e alma não conseguem se conter. Há uma dança eterna dentro de cada átomo. É preciso continuar, em que direção?  Os limites se desenham, formas vazias, buracos, agora propriamente ditos, com eira e beira. Os caminhos se firmam, o mapa exibe seus ramos.
Há ainda uma ausência que se dá a ver. Um abismo que continua lá para onde o espírito aponta: fora. Eu texto me espelho no vazio que me envolve. Eu escrita me identifico com minha exterioridade desdobrada.

                Começo a desconfiar que os grandes mapas nunca tiveram o intuito de encontrar alguma coisa. Talvez o devaneio queira me dizer algo. Talvez o intuito fosse reduzir o espaço ao ponto de poder segurá-lo com as mãos, e assim, chamá-lo de meu. Algo para apresentar. Veja, olhe até onde meu corpo se estende.  Veja os grandes edifícios que construo neste espaço que crio e chamo de meu. Alguém deve conseguir enxergar isto que se dá a ver. Deve ressoar em alguém ou alguma coisa este tremor, este quase canto, esta tentativa.

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